Que me importa a desgraça dos outros se ela ainda não bateu à minha porta? Infelizmente esta é a mentalidade reinante. Crescemos e vivemos toda a vida a pensar em nós e nos nossos. Os outros…Bem, os outros são os outros. Que fiquem com as suas dores, desde que não nos atinjam. Eu, como tantos outros, a maioria, faço parte desse grupo, na medida em que todos os dias poderia fazer mais para ajudar alguém. E quando se quer estender a mão, há sempre quem a queira agarrar. Não o faço por puro comodismo, porque ajudar custa mais do que nada fazer, porque implica olhar o outro nos olhos e reconhecer a sua dor. No caso do Rodrigo não consigo deixar o apelo passar ao lado. Já tinha enviado a minha inscrição como potencial dadora de medula para uma situação anterior, não tão urgente, mas é pelo Rodrigo e pela demora em convocarem-me para fazer as análises de sangue que tenciono dirigir-me ao Hospital para fazer o teste de compatibilidade. Talvez por ser mãe, a ideia de ver aquela vida roubada, tão precocemente, me custe tanto a aceitar. Poderei não fazer a diferença, mas, independentemente do desfecho desta infeliz história, sei que tentei. Pelo menos, em relação a essa, entre as muitas desgraças da vida, ficarei de consciência tranquila.
Sílvia Ornelas
