Por vezes não encontramos palavras para expressar aquilo que sentimos. E, de repente, alguém fá-lo por nós.
Normalmente não sou tentada a ver filmes franceses, mas depois de começar a acompanhar a história também dificilmente desisto. Estava a 2 ligada e a história girava em torno de um agente de imobiliário que queria colocar à prova o seu talento de pianista. Em segundo plano, o filme relatava as, por vezes, complicadas relações entre os pais e os filhos. Logo, o tema também surgiu no diálogo entre amigos. E é aqui que quero chegar.
Numa dessas conversas, um dos agentes imobiliários contava como se sentia quando o pai adoeceu e teve de tomar conta dele, tendo a sensação de que os papéis se invertiam. O pai passava a ser o filho e o filho assumia a função do pai. Dizia ainda que por muito cansativa e esgotante que fosse a situação, gostaria que ela se prolongasse no tempo. O pai acabou por morrer e no ano seguinte o filho teve o seu primeiro filho.
Mas o essencial está noutra parte do diálogo; a sensação com que se fica quando se perde um pai. Com ele, perde-se a noção de imortalidade. Quando vemos o pai ou a mãe morrer sentimo-nos nós próprios mais perto da morte. E com isso vem a vontade de fazer tudo aquilo que não fizemos e uma estranha necessidade de nos aproximarmos de Deus. Não só por causa de quem perdemos mas também pelo nosso próprio egoísmo. Como se aquele tempo infinito que tínhamos à nossa frente se encolhesse ao máximo, sendo agora urgente dar início a todos os projectos que estavam pendentes. É como se julgássemos circular numa estrada a 20 quilómetros horários e quando verificamos vemos que afinal vamos a 120 km.
Tudo isso, porque, de repente, apercebemo-nos que não somos imortais. Deixámos de ser os filhos sob a protecção dos pais e ganhámos a responsabilidade de proteger os nossos próprios filhos. Transformamo-nos naqueles que vemos agora partir.