Filed under Espiritualidades

Olhares

Existem olhares que nos transmitem uma tranquilidade imensa e outros que nos fazem mergulhar numa escuridão profunda. Não é por acaso que se diz que os olhos são o espelho da alma. Eles revelam-nos tristeza, alegria, pânico ou até indiferença, mas dizem-nos sempre algo. Por vezes confortam-nos, outras vezes afastam-nos. Muitas vezes chamam-nos a partilhar um sorriso, noutras vezes uma lágrima.
Existem olhares que nos prendem e nos embalam. Olhares que nos fazem ter a certeza que amamos e somos amados.

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Lembras-te amor?

Porque há textos que nos trazem nostalgia, aqui vai um dos primeiros publicados neste blog, pouco tempo após a morte do meu pai:

- Lembras-te amor do dia em que te conheci?
- Éramos ainda crianças….
- Mas nesse instante soube que te amaria para sempre.
- Não eram tempos fáceis, mas o nosso amor acabou por vencer. Encheste-te de coragem e foste pedir-me em casamento…
- Levei dois amigos. Todos sabiam que o teu pai tinha uma arma e eu não sabia o que esperar.
- Marcámos casamento, mas a guerra meteu-se entre nós e eu todos os dias rezava para não te perder na batalha. Acabei por perder-te noutra…
- Enganas-te amor. Tudo aquilo que é maior do que o infinito não acaba com o último sopro de vida. Estamos apenas separados pela presença física. Nunca duvides que estou e estarei junto de ti.
- Ainda assim, queria-te aqui.
- Sabes…apesar de tudo somos privilegiados. Quantos como nós conheceram o verdadeiro amor e souberam mantê-lo aceso na eternidade? Não tivemos riqueza material, mas conquistámos o maior tesouro de todos. Por isso, sempre que estiveres triste lembra-te do que alcançámos juntos. Das nossas filhas, dos nossos netos e de todas as marcas que deixámos nesse mundo. Um dia, descobrirás que existe muito mais para além disso e conhecerás a liberdade completa. Não temas enfrentar o desconhecido. Levar-te ei pela mão.

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(I)mortalidade

Por vezes não encontramos palavras para expressar aquilo que sentimos. E, de repente, alguém fá-lo por nós.

Normalmente não sou tentada a ver filmes franceses, mas depois de começar a acompanhar a história também dificilmente desisto. Estava a 2 ligada e a história girava em torno de um agente de imobiliário que queria colocar à prova o seu talento de pianista. Em segundo plano, o filme relatava as, por vezes, complicadas relações entre os pais e os filhos. Logo, o tema também surgiu no diálogo entre amigos. E é aqui que quero chegar.

Numa dessas conversas, um dos agentes imobiliários contava como se sentia quando o pai adoeceu e teve de tomar conta dele, tendo a sensação de que os papéis se invertiam. O pai passava a ser o filho e o filho assumia a função do pai. Dizia ainda que por muito cansativa e esgotante que fosse a situação, gostaria que ela se prolongasse no tempo. O pai acabou por morrer e no ano seguinte o filho teve o seu primeiro filho.

Mas o essencial está noutra parte do diálogo; a sensação com que se fica quando se perde um pai. Com ele, perde-se a noção de imortalidade. Quando vemos o pai ou a mãe morrer sentimo-nos nós próprios mais perto da morte. E com isso vem a vontade de fazer tudo aquilo que não fizemos e uma estranha necessidade de nos aproximarmos de Deus. Não só por causa de quem perdemos mas também pelo nosso próprio egoísmo. Como se aquele tempo infinito que tínhamos à nossa frente se encolhesse ao máximo, sendo agora urgente dar início a todos os projectos que estavam pendentes. É como se julgássemos circular numa estrada a 20 quilómetros horários e quando verificamos vemos que afinal vamos a 120 km.

Tudo isso, porque, de repente, apercebemo-nos que não somos imortais. Deixámos de ser os filhos sob a protecção dos pais e ganhámos a responsabilidade de proteger os nossos próprios filhos. Transformamo-nos naqueles que vemos agora partir.

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