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Psiu!

Psiu! Não quebres o silêncio
que te deixa ouvir o som do vento.
Pára e escuta. É a vida de te chama.
Em cada gota que cai,
em cada chilrear dos pássaros,
em cada ramo de árvore que baloiça…
É o som da vida a chamar por ti.
Psiu! Pára e escuta. A vida chama-te.
Responde-lhe com um sorriso,
de quem tem tudo para dar.
Psiu! Pára e escuta
Mas não te deixes ficar parado
Corre para a vida e abraça-a
e deixa-te ficar assim:
desarmado, rendido, mas feliz.

A cidade da estrela

Era véspera de Natal. Tal como todos os anos, o Francisco ansiava pela meia-noite. Às doze badaladas era hora de abrir os presentes que se acumulavam debaixo da árvore. O pinheiro não tinha cheiro, mas a mãe tentava disfarçar com um daqueles aromatizadores comprados no supermercado. Ainda assim, continuava demasiado artificial.
O Francisco nunca percebera muito bem a preocupação da mãe com o pinheiro. Desde que se lembra, a árvore é a mesma que ano após ano é retirada do sótão para ser armada num canto da sala. Ela dizia que quando era pequena, os pinheiros vinham da floresta e não das fábricas, mas os homens deitaram abaixo todas as árvores e agora era com muito custo que se tentava recuperar o verde que rodeava a cidade.
Para o Francisco tudo isso eram ninharias. O que lhe interessava era mesmo abrir os presentes e envaidecer-se junto dos amigos. Tinha um quarto só para brinquedos e só a muito custo conseguiria arrumar os que iria ganhar nesse Natal.
Faltavam algumas horas para a meia-noite e o pai não tinha chegado ainda a casa. A mãe tentava esconder o nervosismo, mas o Francisco percebia que algo não estava bem. A mãe não largava o telemóvel e de instante a instante colocava-o ao ouvido, mas não devia estar ninguém do outro lado porque ela não falava.
Depois de algum tempo a andar de um lado para o outro da sala, pegou nos casacos de abafo, agarrou na mão do Francisco e dirigiram-se para o carro.
A noite estava muito fria e a neve era empurrada pelo limpa pára-brisas. O Francisco gostava de vê-la cair fofinha no chão e de fazer bolas para atirar aos amigos. Divertiam-se muito desta forma, mas quase sempre alguém acabava por se magoar e a brincadeira tinha de acabar.
Sentado na sua cadeirinha, o Francisco observava as pessoas na rua. Muitas entravam e saiam a correr das lojas com muitos sacos na mão. Outras tentavam meter a custo os embrulhos no porta-bagagem do carro.
Era Natal, mas eram poucos os que sorriam. Estavam tão atarefados e ocupados, que se esqueciam de que aquela era altura de festa. De repente, todos pareciam olhar para o mesmo lado. O Francisco não conseguia ver o que se passava. Nesse momento, a mãe parou o carro e saíram. A multidão concentrava-se no meio da estrada e era impossível continuar caminho.
Toda a gente estava estarrecida com aquilo que via. Olhavam para cima e quando o Francisco dirigiu o olhar lá para o alto percebeu o que estava a acontecer. Nunca a noite esteve tão brilhante. Uma estrela enorme, tão grande que quase se lhe podia tocar, irradiava no céu. Era tão brilhante que quase ofuscava. Inesperadamente, a estrela começou a movimentar-se e,
quase que involuntariamente, as pessoas tentavam acompanhá-la. O Francisco e a mãe também. Percorreram a cidade de um lado ao outro, até que chegaram a uma pequena gruta. Lá dentro encontraram um grande lago que reflectia imagens de crianças, mas não eram crianças como o Francisco ou como os seus amigos. Estas crianças não tinham roupa, não tinham brinquedos e gritavam por comida. Pediam ajuda.
Sem que conseguisse controlar, pequenas lágrimas rolaram pela face do Francisco. Não imaginava que houvesse meninos que nada tinham. Como ele, outras crianças que olhavam as imagens choravam e os seus pais também.
De um instante para o outro, as imagens desapareceram. As pessoas começaram a sair uma a
uma da gruta e entre amultidão, o Francisco conseguiu descobrir o pai.
Naquele Natal, o Francisco não quis presentes. Trocou-os por roupa e alimentos para mandar para os meninos que nada tinham. Tal como o Francisco, todos os meninos da cidade quiseram ajudar. A iniciativa dos meninos da cidade da estrela tornou-se tão conhecida que os governantes de todo o mundo decidiram contribuir. E nesse Natal, todos os meninos, sem excepção, puderam ser felizes.

*Conto publicado no Suplemento de Natal do Diário de Notícias da Madeira, 25 de Dezembro de 2010.

No tempo em que me chamavam Silvina

Todos nós temos factos curiosos na nossa vida. Um dos meus tem a ver com o nome. Quando me foram registar, os meus pais queriam colocar-me o nome Sílvia, mas o funcionário do registo implicou que estava na lista nos nomes não autorizados e lá ficou o nome Silvina, que me acompanhou todo o ensino primário.
Nas ferias de passagem para a preparatória, os meus pais foram fazer o meu Bilhete de Identidade e qual não foi o espanto quando verificaram que afinal o nome que constava no registo era Sílvia e não Silvina. Tal foi a teimosia do homem que acabou por se enganar.
Foi assim, que aos 9 anos, passei de Silvina para Sílvia, para felicidade minha.

Saudade

O tempo tem destas coisas. Anda a duas velocidades. Olhando para os últimos três anos, vejo a velocidade com que a vida passou, mas quando o tempo é medido pela saudade, estes últimos três anos parecem ter sido uma eternidade. Ficaram presos a essa manhã de 22 de Dezembro de 2006. Apesar de carregado de uma simbologia de luto, neste dia quero celebrar a vida. A vida que Ele me deu e que me ensinou a viver.

Nunca é tarde para voltar a viver

Chega a uma altura em que se deixa de sentir o frio. O corpo adormenta e perde a sensibilidade. A neve é mais uma companheira solitária das ruas desertas. É Natal e todos estão recolhidos em casa para celebrar a festa em família.

O silêncio do dia, talvez o mais calmo do ano, interrompido pelo sopro do vento gélido, fá-lo levantar os olhos em direcção ao céu. Há muito tempo que perdera a vontade de viver e hoje só apreciava o silêncio.Podia até ouvir uma folha a cair no chão.

Jaime já nem faz as contas ao tempo. Deixa-se apenas arrastar por ele, esperando pelo momento em que finalmente poderá descansar em paz.
As ruas não são locais pacíficos. Podem mesmo ser cenários de guerras mortíferas, onde cada um tenta conquistar o seu espaço.
Jaime tenta evitar os confrontos. Procura os locais menos apetecíveis. Afinal, basta-lhe um metro quadrado de chão para se deixar ficar. Quando no futuro não se avista a esperança, a tendência é para mergulhar no passado e desistir.

Foi isso que aconteceu com Jaime. Mergulhou tão fundo nas memórias que quando se apercebeu não conseguia mais voltar à superfície.
Por mais que todos lhe dissessem que tinha sido um acaso do destino, não se perdoava pelo acidente que há sete anos lhe levou a mulher e a filha.
Era um sábado de manhã, dia reservado pelo família às compras da semana. Nesse sábado, Jaime decidiu ficar em casa. Tinha trazido umas pastas do trabalho que não tivera tempo de concluir na sexta-feira e tenciona aproveitar a manhã do sábado para fazê-lo.

As horas passavam e não havia maneira de a família regressar a casa. Começava a ficar preocupado e com razão. Logo após as duas horas da tarde, o telefone tocou. Todo o seu corpo tremeu. Pegou no auscultador, mas deixou-o cair assim que a voz do outro lado anunciou que tinha havido um acidente e, infelizmente, as notícias não eram boas. Naquele momento, teve a certeza de que também ele perdia a vida.

A partir daquele dia não compareceu mais ao trabalho, deixou de atender o telefone, não abria a porta nem para a restante família. Não passaram muitos dias para que descobrisse que precisava de ir para mais longe. Não quis usar o carro. Eles eram agora o seu principal inimigo.
Andou sem rumo certo. Não sabe quantos quilómetros nem em que direcção. Andou até as pernas fraquejarem e cair por chão.

Saíu de casa sem nada. Sem mudas de roupa, sem carteira ou outro objecto pessoal. Despojou-se de tudo e de todos.
Passados tantos anos nem sabe como sobreviveu entre as ameaças dos outros sem-abrigo e os olhares de desprezo dos que se passeavam nas ruas com a fatiota da moda. Olhava para eles e via-se a si próprio há uns anos.

Hoje, apreciava o silêncio. Ninguém tinha de fingir que não o via jogado na berma da estrada. Ninguém o via porque as ruas estavam desertas.
Decidiu aproveitar o sossego do dia para passear pelo jardim público. Vestiu o casaco de lã que dias antes encontrara num caixote do lixo quase novo e pôs-se a caminho. O som das suas próprias passadas surgia ruidoso no silêncio do dia.

Caminhou alguns metros, mas estava demasiado fraco para continuar. Uma vez mais as pernas fraquejaram e deixou-se cair por terra. Não sabe quanto tempo ficou inanimado, mas quando voltou a abrir os olhos não foi a neve que viu.

Jaime olhou em seu redor e não conseguia perceber onde se encontrava. Será que finalmente a morte o tinha chamado e aquele era o paraíso? Estaria ainda prostrado na neve e tudo aquilo não passava de um sonho? Fechou novamente os olhos e, nessa altura, sentiu uma mão a afagar-lhe a face. À sua frente estava uma menina mais ou menos da idade da filha quando morreu, precisamente sete anos.

A rapariga olhava-o fixamente, deixando-o pouco à vontade. Sentia-se intimidado por aqueles olhos de um azul intenso que pareciam mergulhar no fundo da sua alma. Timidamente perguntou onde estava. ‘Estás na casa do meu papá’, respondeu-lhe com um sorriso que inundava a sala. Nesse momento, a porta abriu-se e o rosto que surgiu lhe pareceu familiar. Quase instantaneamente viu-se envolvido num abraço. Chorou de emoção e de embaraço. Estava demasiado gasto para ser visto por alguém, quanto mais pelo irmão. Baixou os olhos com receio de encarar a verdade e mais uma vez sentiu uma mão a afagar-lhe a face. Ao carinho seguiu-se um outro abraço. De soslaio via as lágrimas a rolarem pela face do irmão. Não teve coragem de pronunciar uma palavra.

Depois de tantos anos na rua aquele abraço era reconfortante e pela primeira vez nesse tempo todo voltou a sentir os cheiros do ambiente que o rodeava.
Encheu os pulmões de ar, olhou o irmão nos olhos e pediu desculpa. Voltou a sentir um abraço e ouviu apenas: ‘Não peças desculpa, este é o melhor Natal de sempre’.

Jaime soube depois que, nessa tarde, o irmão, que era médico, tinha sido chamado de urgência ao hospital onde trabalhava. No regresso viu um vulto deitado junto à berma da estrada e resolveu parar para perguntar se precisava de ajuda. Nem quis acreditar quando lhe viu o rosto. As preces de tantas noites tinham sido finalmente atendidas.

Sílvia Ornelas
in ‘Mais’ – ‘Diário de Notícias’

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A cidade da estrela


Era véspera de Natal. Tal como todos os anos, o Francisco ansiava pela meia-noite. Às doze badaladas era hora de abrir os presentes que se acumulavam debaixo da árvore. O pinheiro não tinha cheiro, mas a mãe tentava disfarçar com um daqueles aromatizadores comprados no supermercado. Ainda assim, continuava demasiado artificial.
O Francisco nunca percebera muito bem a preocupação da mãe com o pinheiro. Desde que se lembra, a árvore é a mesma que ano após ano é retirada do sotão para ser armada num canto da sala. Ela dizia que, quando era pequena, os pinheiros vinham da floresta e não das fábricas, mas os homens deitaram abaixo todas as árvores e agora era com muito custo que se tentava recuperar o verde que rodeava a cidade.
Para o Francisco tudo isso eram ninharias. O que lhe interessava era mesmo abrir os presentes e envaidecer-se junto dos amigos. Tinha um quarto só para brinquedos e só a muito custo conseguiria arrumar os que iria ganhar nesse Natal.
Faltavam algumas horas para a meia-noite e o pai não tinha chegado ainda a casa. A mãe tentava esconder o nervosismo, mas o Francisco percebia que algo não estava bem. A mãe não largava o telemóvel e de instante a instante colocava-o ao ouvido, mas não devia estar ninguém do outro lado porque ela não falava.
Depois de algum tempo a andar de um lado para o outro da sala, pegou nos casacos de abafo, agarrou na mão do Francisco e dirigiram-se para o carro.
A noite estava muito fria e a neve era empurrada pelo limpa pára-brisas. O Francisco gostava de vê-la cair fofinha no chão e de fazer bolas para atirar aos amigos. Divertiam-se muito desta forma, mas quase sempre alguém acabava por se magoar e a brincadeira tinha de acabar.
Sentado na sua cadeirinha, o Francisco observava as pessoas na rua. Muitas entravam e saiam a correr das lojas com muitos sacos na mão. Outras tentavam meter a custo os embrulhos no porta-bagagem do carro.
Era Natal, mas eram poucos os que sorriam. Estavam tão atarefados e ocupados, que se esqueciam de que aquela era altura de festa.
De repente, todos pareciam olhar para o mesmo lado. O Francisco não conseguia ver o que se passava.
Nesse momento, a mãe parou o carro e saíram. A multidão concentrava-se no meio da estrada e era impossível continuar caminho.
Toda a gente estava estarrecida com aquilo que via. Olhavam para cima e quando o Francisco dirigiu o olhar lá para o alto percebeu o que estava a acontecer. Nunca a noite esteve tão brilhante. Uma estrela enorme, tão grande que quase se lhe podia tocar, irradiava no céu. Era tão brilhante que quase ofuscava.
Inesperadamente, a estrela começou a movimentar-se e, quase que involuntariamente, as pessoas tentavam acompanhá-la. O Francisco e a mãe também.
Percorreram a cidade de um lado ao outro, até que chegaram a uma pequena gruta. Lá dentro encontraram um grande lago que reflectia imagens de crianças, mas não eram crianças como o Francisco ou como os seus amigos. Estas crianças não tinham roupa, não tinham brinquedos e gritavam por comida. Pediam ajuda.
Sem que conseguisse controlar, pequenas lágrimas rolaram pela face do Francisco. Não imaginava que houvesse meninos que nada tinham. Como ele, outras crianças que olhavam as imagens choravam e os seus pais também.
De um instante para o outro, as imagens desapareceram. As pessoas começaram a sair uma a uma da gruta e entre a multidão, o Francisco conseguiu descobrir o pai.
Naquele Natal, o Francisco não quis presentes. Trocou-os por roupa e alimentos para mandar para os meninos que nada tinham. Tal como o Francisco, todos os meninos da cidade quiseram ajudar. A iniciativa dos meninos da cidade da estrela tornou-se tão conhecida que os governantes de todo o mundo decidiram contribuir. E nesse Natal, todos os meninos, sem excepção, puderam ser felizes.

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‘Caim’ de Saramago

Como se a polémica não fosse mesmo o objectivo! É apenas o resultado de uma estratégia bem pensada e montada. Ou não fosse Saramago hábil neste tipo de artimanhas. Deve estar a divertir-se à grande bem sentado na sua pol…trona. Enquanto isso a curiosidade é aguçada em relação ao novo livro. É como diz o ditado, quem não sabe vender, que feche a loja.

A propósito de Maitê Proença e de Miguel Sousa Tavares

Acho muita piada ao facto de alguns defenderem que tudo pode ser alvo de comédia. Pode-se brincar com as dores dos outros. Pode-se ofender, de forma gratuita, a cultura e valores de um determina…do povo. Pode-se fazer tudo e mais alguma coisa. Desde que seja humor.
À reacção dos portugueses vem assim contrapor-se Miguel Sousa Tavares. Para quem, e passo a citar: “É uma reacção provinciana dos portugueses. Somos um povo sem capacidade de humor e autocrítica”. O Dr. Miguel Sousa Tavares é de facto a pessoa mais bem humorada que eu conheço.
Para quem se apresenta sempre sisudo e com críticas constantes, enquadra-se perfeitamente no perfil que ele próprio traça dos portugueses. Tanto que, e como ‘bom’ português que é, reagiu da forma como reagiu quanto um blogue revelou a…s estranhas coincidências do seu livro ‘Equador’com um outro, com o título ‘Cette nuit la liberté’.
Pois é, sr. Dr. para falar dos outros estamos cá nós. Quando nos toca é que já é mais tramado.

P.S. Mas mais do que a palhaçada da Maitê Proença, causa-me repulsa o aproveitamento de dramas pessoais para se fazer humor, como foi o caso, entre outros, do desaparecimento de Madeline. Lembro-me também ao nível regional de se fazer piada, num programa humorístico radiofónico, pelo facto de uma determinada pessoa ter recorrido à Braquiterapia, uma técnica que consiste na introdução de sementes radioactivas, no combate ao cancro da Próstata. Julgo que a piada não ofendeu apenas a pessoa visada, mas também todos aqueles que são tocados directa ou indirectamente por esta doença. Devo dizer que, tendo o meu pai falecido há pouco tempo por Cancro sa Próstata, não achei mesmo nenhuma piada. Penso que não fui a única.

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Paixão

Essa paixão que me deixa apaixonado
amor do me coração
tanto tempo esperado
Porquê te amar
sem ser amado
tu que me abandonáste
não sabes o que é ser abandonado

(poema de 1900 e troca o passo)

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