
Chega a uma altura em que se deixa de sentir o frio. O corpo adormenta e perde a sensibilidade. A neve é mais uma companheira solitária das ruas desertas. É Natal e todos estão recolhidos em casa para celebrar a festa em família.
O silêncio do dia, talvez o mais calmo do ano, interrompido pelo sopro do vento gélido, fá-lo levantar os olhos em direcção ao céu. Há muito tempo que perdera a vontade de viver e hoje só apreciava o silêncio.Podia até ouvir uma folha a cair no chão.
Jaime já nem faz as contas ao tempo. Deixa-se apenas arrastar por ele, esperando pelo momento em que finalmente poderá descansar em paz.
As ruas não são locais pacíficos. Podem mesmo ser cenários de guerras mortíferas, onde cada um tenta conquistar o seu espaço.
Jaime tenta evitar os confrontos. Procura os locais menos apetecíveis. Afinal, basta-lhe um metro quadrado de chão para se deixar ficar. Quando no futuro não se avista a esperança, a tendência é para mergulhar no passado e desistir.
Foi isso que aconteceu com Jaime. Mergulhou tão fundo nas memórias que quando se apercebeu não conseguia mais voltar à superfície.
Por mais que todos lhe dissessem que tinha sido um acaso do destino, não se perdoava pelo acidente que há sete anos lhe levou a mulher e a filha.
Era um sábado de manhã, dia reservado pelo família às compras da semana. Nesse sábado, Jaime decidiu ficar em casa. Tinha trazido umas pastas do trabalho que não tivera tempo de concluir na sexta-feira e tenciona aproveitar a manhã do sábado para fazê-lo.
As horas passavam e não havia maneira de a família regressar a casa. Começava a ficar preocupado e com razão. Logo após as duas horas da tarde, o telefone tocou. Todo o seu corpo tremeu. Pegou no auscultador, mas deixou-o cair assim que a voz do outro lado anunciou que tinha havido um acidente e, infelizmente, as notícias não eram boas. Naquele momento, teve a certeza de que também ele perdia a vida.
A partir daquele dia não compareceu mais ao trabalho, deixou de atender o telefone, não abria a porta nem para a restante família. Não passaram muitos dias para que descobrisse que precisava de ir para mais longe. Não quis usar o carro. Eles eram agora o seu principal inimigo.
Andou sem rumo certo. Não sabe quantos quilómetros nem em que direcção. Andou até as pernas fraquejarem e cair por chão.
Saíu de casa sem nada. Sem mudas de roupa, sem carteira ou outro objecto pessoal. Despojou-se de tudo e de todos.
Passados tantos anos nem sabe como sobreviveu entre as ameaças dos outros sem-abrigo e os olhares de desprezo dos que se passeavam nas ruas com a fatiota da moda. Olhava para eles e via-se a si próprio há uns anos.
Hoje, apreciava o silêncio. Ninguém tinha de fingir que não o via jogado na berma da estrada. Ninguém o via porque as ruas estavam desertas.
Decidiu aproveitar o sossego do dia para passear pelo jardim público. Vestiu o casaco de lã que dias antes encontrara num caixote do lixo quase novo e pôs-se a caminho. O som das suas próprias passadas surgia ruidoso no silêncio do dia.
Caminhou alguns metros, mas estava demasiado fraco para continuar. Uma vez mais as pernas fraquejaram e deixou-se cair por terra. Não sabe quanto tempo ficou inanimado, mas quando voltou a abrir os olhos não foi a neve que viu.
Jaime olhou em seu redor e não conseguia perceber onde se encontrava. Será que finalmente a morte o tinha chamado e aquele era o paraíso? Estaria ainda prostrado na neve e tudo aquilo não passava de um sonho? Fechou novamente os olhos e, nessa altura, sentiu uma mão a afagar-lhe a face. À sua frente estava uma menina mais ou menos da idade da filha quando morreu, precisamente sete anos.
A rapariga olhava-o fixamente, deixando-o pouco à vontade. Sentia-se intimidado por aqueles olhos de um azul intenso que pareciam mergulhar no fundo da sua alma. Timidamente perguntou onde estava. ‘Estás na casa do meu papá’, respondeu-lhe com um sorriso que inundava a sala. Nesse momento, a porta abriu-se e o rosto que surgiu lhe pareceu familiar. Quase instantaneamente viu-se envolvido num abraço. Chorou de emoção e de embaraço. Estava demasiado gasto para ser visto por alguém, quanto mais pelo irmão. Baixou os olhos com receio de encarar a verdade e mais uma vez sentiu uma mão a afagar-lhe a face. Ao carinho seguiu-se um outro abraço. De soslaio via as lágrimas a rolarem pela face do irmão. Não teve coragem de pronunciar uma palavra.
Depois de tantos anos na rua aquele abraço era reconfortante e pela primeira vez nesse tempo todo voltou a sentir os cheiros do ambiente que o rodeava.
Encheu os pulmões de ar, olhou o irmão nos olhos e pediu desculpa. Voltou a sentir um abraço e ouviu apenas: ‘Não peças desculpa, este é o melhor Natal de sempre’.
Jaime soube depois que, nessa tarde, o irmão, que era médico, tinha sido chamado de urgência ao hospital onde trabalhava. No regresso viu um vulto deitado junto à berma da estrada e resolveu parar para perguntar se precisava de ajuda. Nem quis acreditar quando lhe viu o rosto. As preces de tantas noites tinham sido finalmente atendidas.
Sílvia Ornelas
in ‘Mais’ – ‘Diário de Notícias’